quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Eu quero uma noite feliz

Eu quero uma noite feliz dentre tantas tristes, ter uma invasão noturna e uma visão que excite. Um romance aberto, quase sem frescura, quero amargurar as bênçãos que me estupram. Eu quero sentir que meus segundos pesam, seja num cinema ou num boteco estéril; quero que a esquina seja um mero prédio, e que meus pertences sejam mais eternos. Quero que meu sexo seja fugido, quero amanhecer e me encontrar distante, ficar na penumbra não ligar de onde, quero que ninguém saiba onde se esconde. Preciso de beijo no intervalo mudo, criar um criado momento de tudo, quero que o meu sangue seja de uva pura, e queira ser passado pelas linhas duras. Quero amor à noite e café na varanda, quero trabalhar para sair distante, quero voltar tarde e saber que não pode, quero sacanagem, madrugada forte. Preciso de vida para os meus desejos, quero mais desejos para os meus gracejos, saber que além do meu peito estende-se perfeita uma linha tênue que define o tempo. Quero extrapolar as regras societárias, desestruturar as telhas operárias, provar que o mundo não é para todos, que para a carona o que não falta é louco. Vejo o motorista a cruzar a rua, vejo o imbecil que pouco sabe e atua, sinto seu desprezo e depois me lembro que meu campo é outro, meu silêncio é ouro. Ouço estardalhaços, baixo meus instintos, gritam na minha cara e eu quieta lembro que não sou de nada, que estão todos certos, pois meus objetos não se compram retos. Preciso sair aos campos de batalha, deitar nas trincheiras e pintar a cara, não tenho mais lenha para ver faisqueiras, quero mais incêndio nessa minha campeira. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O certo e o errado

O ser humano é vulnerável e sofre muito em razão da sua ignorância. Esta, que consiste na culpa que sente por se cobrar constantemente pela definição e cumprimento do certo e do errado mas que, sendo estes relativos, não podem ser definidos. Sua definição é individual e baseada em crenças.
Uma mesma ideia é verdade absoluta em um momento e pode virar um erro enorme logo depois, dependendo da pessoa com quem se conversa, o filme que se vê ou o livro lido. A visão e versão dos fatos que o ser humano propõe ao outro é extremamente afetada pelo que vive e nutre durante a vida. Quando se passa a acreditar que algo é certo, tudo o que se vê parece concordar, reforçar e provar o fato. Já se algo influencia de forma diferente o sujeito, tornando-o cético, seja dois minutos ou dez anos depois, seja por qual motivo for - doloroso e marcante ou mesmo simples, todo o universo parecerá conspirar a provar o contrário do que antes se havia dito. E então, aquilo que outrora era defendido como verdade incontestável, passa a ser obviamente errado.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pisar na eternidade

"Fazer amor é coisa séria demais... Não basta um corpo e outro corpo, misturados num desejo insosso, desses que dão feito fome trivial, nascida da gula descuidada, aplacada sem zelo, sem composturas, sem respeito, atendendo exclusivamente a voracidade do apetite. Fazer amor é percorrer as trilhas da alma, uma alma tateando a outra, desvendando véus, descobrindo profundezas, penetrando nos escondidos, sem pressa, com delicadeza... Porque alma tem tessitura de cristal, deve ser tocada nas levezas, apalpada com amaciamentos... Até que o corpo descubra cada uma de suas funções. Quando a descoberta acontece, é que o ato de amor começa. As mãos deslizam sobre as curvas, como se tocando nuvens, a boca vai acordando e retirando gostos, provando os sabores, bebendo a seiva que jorra das nascentes escorrendo em dons, é o côncavo e o convexo em amorosa conjunção. Fazer amor é ressurreição. É nascer de novo: no abraço que aperta sem sufocamentos, no beijo que cala a sede gritante, na escalada dos degraus celestiais que levam ao gozo. Vale chorar, vale gemer, vale gritar... porque aí já se chegou ao paraíso e qualquer som há de sair melódico e afinado, seja grave, agudo, pianinho... Há de ser sempre o acorde faltante quando amantes iniciam o milagre do encontro. Corpos se ajustaram, almas se matizaram... Fez-se o êxtase! É o instante do amor, da paz... É a escritura da serenidade, sabedoria! E os amantes em assunção, pisam eternidades."


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Não entendo.

Gênio essa mulher! Não entender e se permitir isso, com inteligência, é a alegria da ignorância, de viver sem angústias e medos. Muitas vezes não entender é a paz.


"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."


Clarice Lispector

terça-feira, 3 de maio de 2011

Porque sim.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Vinicius de Moraes

terça-feira, 19 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Bipolaridade - Mode: on.

Cecília Meireles me lembra aulas de português da terceira série do Ensino Fundamental! 


Não estranhem a aparição dessa poesia no blog mais uma vez, eu tenho o importuno costume de postar ele sempre que estou atravessando períodos de TAB. Enjoy, guys:

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ausência - Vinicius de Moraes

O entendimento de um escrito se dá pelo que se está vivendo, lendo, fazendo, sentindo. Às vezes a explicação de alguém também nos ajuda a compreender o que o autor quis dizer. Mas não é só para que saibamos o que se passava na cabeça do poeta que a poesia é feita. 
A poesia também nos ajuda a explorar nossos próprios sentimentos, os inatingíveis pelas nossas pobres palavras e pensamentos, sentimentos penumbrados dentro de nós, pois estes, quando conseguem ser traduzidos em palavras que tocam - e palavras são fáceis de achar; achá-las e anexá-las criando uma cadência musical, de forma que nos toque, isso é difícil; para tanto é imprescindível a maestria do verdadeiro poeta -, nos fazem sentir vivos. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Avec le ventre

Dos mais sábios conselhos que recebi
Quando partia àquela viagem de solidão (a boa solidão)
E desafios, e possíveis memórias inesquecíveis
Em meio à insegurança do desconhecido
Temendo os visíveis riscos,
A saudade, a dor, a solidão (aquela que é ruim)
O mais simples imperou:
Il faut pousser avec le ventre, ela disse
E a preocupação se esfarelou.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

My mood today: Pasárgada.

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O sofrimento e a poesia


Quem não verdadeiramente escreve, só escreve quando sofre. Só sabe transformar as palavras em melodias quando sente. Ou será que quem verdadeiramente escreve é porque mais vive? Ou percebe o mundo com mais intensidade? Seria este mais senhor/a de si? Seria menos?
Só sei que fazia tempo que eu não conseguia pousar sequer um traço neste espaço. Mas hoje eu precisava.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Olho por olho

Hoje eu sou contra a vingança. Pagar na mesma moeda, dar o troco e mesquinharias afins. Ontem, por outro lado, sofri uma tentação incontrolável de retribuir alguns desagrados que recebi. E, amanhã, eu vou olhar com desprezo as tentativas de provocação que me forem lançadas. Porque hoje eu senti uma demonstração de afeto tão bonita. E ontem eu entrei num clima humano tão cruel. E amanhã, quem sabe, meu espírito esteja em um dos seus momentos de evolução... como há tanto tempo ele não fica. Mas mesmo que eu não aja sempre da mesma forma, eu sei que se a lex talionis for colocada em prática, realmente, o amor acabará.

domingo, 21 de março de 2010

Medos antepassados

Egoísmo entregue, dedicada proteção
um deus, alguém, dois olhos vivos tristes
Se um peito aberto e nada o mesmo foi
demasiado baixo aos pedestais que insistem

E o poeta não quer ser pequeno
quer ser usado, sem pensar na dor
E seus abraços hoje tão calados
Inda carecem espargir amor

Ah, medos antepassados, passados que presenteiam
nossos dias apaixonados
de maldade a derrubar esteios

Se do que foi ficam lições e medos
sou desalmado
aluno sem receios

terça-feira, 2 de março de 2010

Para uma Menina com uma Flor

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.